No ar em ‘Haja coração’, Betty Gofman fala da mania de adotar animais

Atriz apresenta Menina, uma de suas cadelas, e Nina, uma macaca-prega

POR BETTY GOFMAN

11/09/2016 4:30

2013-628285435-2013-626627752-2013070480317.jpg_20130704.jpg_20130711.jpgDupla. Betty Gofman com a cadela Menina – Eduardo Naddar / Agência O Globo

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RIO – Menina chama enquanto escrevo. Precisa de mim. Está surda.

Na casa em que nasci, o bicho veio não para aprender, mas para ensinar. Minha irmã Clarisse, com dificuldade de andar, aprendeu a levantar com quem anda em quatro patas. Quando todos nós chegamos, já havia bicho. Viemos depois.

Dolly, a pincher, morreu quando eu tinha 11 anos. Chorei tanto, mas tanto. Como se tivesse perdido alguém. Eu, talvez?…

Quatro irmãos, eu caçula. Carro na estrada, subindo a serra. A menina me chama. Eu olho pela janela, sozinha. Bichinhos machucados, abandonados e meu coração enxerga. Não conto para ninguém e choro, escondida até de mim.

Vou morar sozinha e não tenho coragem de ter um bicho de novo em casa. Escondo na rotina o olhar do coração.

Então, numa feira de animais — o que hoje sei ser uma coisa odiosa —, me deparo com aquele ser frágil. Eu o levo comigo. Ele morre rápido, sem as vacinas nem a idade que tinham me dito que tinha.

Pouco tempo depois, caminhando desatenta, o coração enxerga um whippet. Me prometo que esse será meu companheiro para sempre. Companheira, na verdade. Veio menina, a minha Menina.

“Olha aquelas duas magrelas correndo na Lagoa!” Faço tudo com ela: trilhas, almoços e banhos. No chuveiro, o meu xampu e o dela.

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Os olhos do coração se abrindo cada vez mais, Menina ao meu lado, tendo seus filhotes e a vida segue.

Recém-casada, com a Menina, encontro na estrada, à beira de uma comunidade, um vira-lata maltratado, triste. Invisível aos olhos, mas não aos da alma. Não quis levar e fui embora.

“Meio doida, sabe? Mulher carente.” Com medo de ser vista assim, como os protetores são vistos, fraquejei. Chorei 15 dias, arrumei o telefone do lugar, mas era tarde. Atropelado. Chega.

Não era por eles, só. Era por mim. Necessidade que eu tinha de ajudar. O radar para as dores deles não desligava e eu não podia ignorar. Prometi que, desse dia em diante, iria ajudar sempre.

Fui fazer um filme em Barcelos, na Amazônia. Lá eu a vi, em posição fetal, amarrada a uma árvore. Nina me chama. Sem nem me olhar. A macaca-prego de barriga amarela acabou no meu colo de tanto que falei dela. E nem sabia o que fazer, mas tinha que fazer. Liguei para Dayse, a bióloga que me ensinou a cuidar. Comprei fraldas, leite, taquei tudo numa bolsa e fui para o set de filmagem. Na volta, punha ela para dormir cantando.

Antes de as minhas filhas sonharem em vir, já tinha sido mãe. De outra espécie. E daí? Tem gente que cuida de gente, eu de bicho.

Nina foi para Manaus, mora no Hotel Tropical e estrelou, por acaso, o filme “Tainá”. Virou atriz, como a mãe.

Menina me chama. Está surda. Tem a idade do meu despertar. Da menina que vive dentro de mim.

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Eu resgato bichos de rua e, ao doar para um novo lar, me resgato também. Já não consigo comer carne, frango. A natureza de cuidar é maior que a de ser predador em mim.

Menina me chama. Eu obedeço. Ela, surda, mas a gente se escuta, sempre. Ela quer sair, passear por aí, ser bicho.

Quem sou eu para não responder? Esta não seria eu.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/no-ar-em-haja-coracao-betty-gofman-fala-da-mania-de-adotar-animais-20081045#ixzz4K3vUSo88
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