SOBRE NÓS, QUE AMAMOS OS ANIMAIS

Pela escritora Catarina Maul

14 de novembro

As emoções de um humano que ama realmente os animais são diferentes. Para aqueles que não ligam, que ligam e somente respeitam, que respeitam mas sem lhes dizer nada, pode ser incompreensível que lidemos com certas situações com mais dor e pesar do que com a perda de algumas pessoas, de alguns parentes. Mas sentimento não se escolhe, quando vemos ele nos toma a alma, nos crava o coração, nos domina o cérebro.

Desde pequena, tinha total preocupação com os animais de rua. Uma vez vi um cão atropelado, e em volta dele, muitos cães perplexos e tristes. Já os humanos passavam, em suas rotinas, sem fazer nada. Eu era pequena, voltava da escola, nada podia fazer do alto dos meus onze anos, mas aquela dor me acompanhou por dias, meses, anos. Me acompanha até hoje, com o retrato fiel daquela imagem que não perdeu uma só cor durante todo esse tempo.
Depois, na adolescência, tive minha primeira cadela, a Cereja, uma vira lata que viveu somente 7 anos por total incompetência e mercenarismo de um veterinário petropolitano. Éramos grudadíssimas, relação de total cumplicidade. Quando eu viajava com os amigos e telefonava para casa, não queria saber como estava a família, só como estava a Cereja. E ela, só de sacanagem, quando eu me ausentava, ficava deprimida, não comia. E lá vinha eu embora no meio da viagem, preocupada com a cadelinha. Nem filho tinha, mas tinha a Cereja, o que era quase a mesma coisa.
Quando ela se foi, depois de um final trágico, conheci o Lexotan, única forma de dormir, tamanha a minha dor. Foram meses de angústia e alma trancada, de tanta falta que senti. Demorei para me curar. Ou, senão, superar.
E assim, os animais me tomaram conta, sempre, vários, para os quais muito me dedico e amo incondicionalmente.
Assim, nós que amamos os animais, nos sentimos. Nos colocamos no lugar de cada um ser vivo, olhamos em seus olhos com cumplicidade, tentamos adivinhar o que pensam, quem são.
Lembro-me bem, e esta é uma prática que tenho com meu filho até hoje, de cuidar para nunca esmagar um inseto, de espantar mas não matar os mosquitos, de levar as larvas das verduras para um vaso de plantas fora da casa, para ela achar outro destino e viver. Parece atitude de monge tibetano, mas somos meio monges assim mesmo, amando a natureza.
E isso se estende para as plantas. Semana passada, mudei os meus cactos de vaso. Achei que estavam desconfortáveis, espremidos, tristes. Comprei vasinhos, terra nova, cuidei deles. Cinco dias depois nasceram flores em quatro deles. Senti uma atitude de agradecimento no ar.
Por isso somente nós que amamos os animais acima de tudo nos entendemos. E fazemos com a maior boa vontade as faxinas repetitivas na casa, aturamos os tantos compromissos com banho, tosa, vermífugos, veterinários, e conhecemos os animais dos amigos pelos nomes. Reduzimos os períodos das viagens, só viajamos sob a garantia de que alguém de extrema confiança assumirá o controle sobre eles, vivemos em sua função, literalmente.
Somente nós, que perdemos noites para dar um remedinho, que acendemos com muita fé as velas a São Francisco de Assis, que fazemos declarações de amor constantes a todos, um por um, para evitar complexos, é que sabemos o que sente quem ama, de verdade, os animais.
E lamentamos pelos que não amam, porque perdem uma imensa oportunidade de conhecer o mais puro, recíproco e verdadeiro amor. E a paz de sentir um querer bem de verdade.
Nós, que amamos os animais, somos abençoados. E essas bênçãos são a oração que entoamos, juntos, como um mantra, com os irmãos fiéis dessa seita mágica e única onde o deus maior é o respeito pelas criaturas vivas que não pediram para nascer nessa condição de impotência e insegurança.
Mas, esse sentimento, entendemos que não atinja todas as pessoas. Somente a nós que, privilegiadamente, amamos os animais. E, felizmente, vamos amar para sempre. Mais do que tudo.

Catarina Maul

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